"Vem pra cá correndo, a cidade tá caindo"

Hoje, 22 de novembro, completa-se um ano da tragédia que todos de nossa região lembramos bem. Aquela chuva forte, aquela destruição. Esse post tecnicamente não é esportivo, mas conta o que aconteceu comigo naquele dia. Eu ia trocar o carro, virei a voz da enchente na cidade de Brusque. Uma experiência única na minha vida.

Eu estava nos Jogos Abertos naquele dia. Dormia no Hotel em Timbó, e ia almoçar no restaurante da imprensa, no Clube Pomerode. Chovia demais, e uma barreira pequena havia caído na rodovia em Rio dos Cedros. Nada que me assustasse, até porque a correria do Jasc me tira de acompanhar o noticiário local como de costume.

Cheguei no Clube, almocei vendo na RBS uma situação estranha, com morros caindo, mas nenhuma TV falava alguma coisa de Brusque (o que é normal). Meu celular estava desligado, e quando liguei haviam 14 ligações vindas da rádio. Era o Dirlei, nosso chefe de esportes, pedindo que alguém levasse o carro da Rádio, que possuía um rádio transmissor, para Brusque, e pegasse outro, a fim de transmitir o voleibol à noite. E ainda mandava eu vir rápido: "Vem pra cá correndo, a cidade tá caindo". Como eu estava tendo um problema sério com o meu notebook para edição e geração de matérias, resolvi ir, para trocar o equipamento. Peguei o Xirú e fomos, naquela chuvarada.

Só me dei conta que a coisa estava feia quando tive que entrar em Blumenau, já que a BR-470 estava interrompida por causa da explosão do gasoduto. A solução era atravessar o centro, pegar a Rua Itajaí e chegar a Gaspar. Lá pelas bandas da Rua São Paulo, comecei a ver vários carros com geladeira, fogão, colchão amarrado no teto. Falei pro Xirú: "acho que a coisa tá feia, amigo...".

Entrei na rodovia Gaspar-Brusque e comecei a ver várias barreiras ocupando a pista. Em um trecho, em frente à fábrica da Souza Cruz, a água tomava a pista. Organizamos uma fila, onde a gente atravessaria aquela água atrás de um caminhão, que abriria caminho. Eu aguardava a vez, quando o Xirú grita: "Aceleeeera!!!". Era uma árvore que vinha em nossa direção. Entrei na contramão e escapei por pouco.

A partir do momento que o rádio comunicador funcionou, dei algumas informações no ar. Consegui deixar o Xirú em casa, e fui sozinho tentar chegar na rádio, no centro da cidade. Não tinha como, todas as ruas estavam interrompidas, e passei a comunicar a cada minuto a situação. O Dirlei me ligou e disse: "Cara, sei que não era pra estares aqui, mas agora pensa que a cidade tá caindo toda. Gira essa cidade e fala tudo o que tu ver". Eu estava quieto no Jasc e caí dentro de uma unidade móvel no olho de uma tragédia sem proporções. Como o carro tinha também a frequencia dos bombeiros, eu ia atrás de tudo. Inclusive na casa de um entregador de pizza de 21 anos, pai de uma filhinha, que morreu lá no Steffen. Confesso: chorei, assim como mais três vezes naquela noite, ao ver minha cidade destruída, e eu sozinho naquele Gol bolinha falando o que via pela frente.

Minha casa sem energia, a TV sem energia, meus pais em Floripa, minhas irmãs estavam seguras. Meu celularzinho, já com a bateria no osso, fotografava o que via pela frente. E foi assim durante aquela madrugada: longa, sofrida, mas inesquecível na minha vida jornalística. Lá pelas 3 da manhã, eu estava no Paquetá, quando calculei mal a passagem na Rua do Cedrinho e entrou água no motor. O valente Gol bolinha, que passou por lamaçais, debaixo de árvores penduradas e destroços de casa, parou. Voltei de guincho pra Rádio, em um silêncio sepulcral, pensando naquilo tudo: não era pra mim estar ali, mas acabei indo. E num dia em que o rádio era o veículo de comunicação mais importante. Eu era a voz fora do estúdio da rádio, que por uma coisa de outro mundo, não saiu do ar.

Nos outros dias, ancorei por horas e horas seguidas uma cobertura de 24 horas das cheias, com o povo ligando pra lá e contando os seus problemas. Nessa hora, eu fui âncora, psicólogo, coordenador, amigo, sei lá... Mas acho que fiz o que o cara lá de cima queria que eu fizesse.

Na abertura dos Jogos Abertos em Chapecó, mostraram imagens daquele dia, e tudo veio de volta na minha cabeça. Foi de chorar. Mas essa história, vou levar sempre comigo.

Comentários

  1. lembro desse dia e da transmissão da radio cidade e do rodrigo indo de um lado pro outro. foi dureza, mas passamos.

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  2. Vou ser sincero. Era nas minhas férias época de vestibular. Ligar a Rádio Cidade de manhã cedo e ficar ouvindo o plantão, via cmputador, no período de cobertura da enchente, era ritual sagrado.

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  3. Teu problema é o fanatismo pelo Brusque, de resto, tu és gente boa!

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  4. Cara, não sabia desta história até pq aqui em Floripa infelizmente só temos estas rádios cacarecos daqui p/ acompanhar.
    Mas meus parabéns pelo trabalho.
    Saudações Azurras,
    Sandro

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  5. Assim como o Sandro, também não havia tomado conhecimento dessa sua cobertura heróica das tragédias de 2008.

    Parabéns e que suas experiências sirvam para termos melhores condiçoes de enfrentar futuras situações adversas.

    Abraços,
    Guto

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